domingo, 16 de maio de 2010

Polícia Federal: Intimações



Dentro dos Núcleos de Operações ou similares, principalmente no âmbito das Delegacias descentralizadas, existe uma ou mais equipes, que são responsáveis pela entrega das intimações referentes aos Inquéritos existentes na unidade policial.


Eu mesmo, durante muitos anos, no início da minha carreira, pertenci a equipes de intimação, por fatores diversos. Quando eu estava na Delegacia Fazendária, fui colocado à disposição do Delegado Victor Poubel, para ser o responsável pelos expedientes provenientes dos seus IPLs. Já escrevi sobre isso aqui no blog.


Por quase um ano, entreguei as intimações e os ofícios do DPF Poubel, pela cidade do Rio de Janeiro. No começo, eu, muito novato, sem grandes conhecimentos de localização na cidade maravilhosa, fiquei um tanto quanto intimidado com a natureza do trabalho. Com o tempo, percebi que era uma função boa, em determinados aspectos.


Acabei por conhecer a cidade de forma mais apurada e organizei meu horário de trabalho de acordo com a minha conveniência. Se o policial trabalha quase que exclusivamente na rua, como o intimador, seus horários praticamente lhe pertencem. Obviamente, alguns dias da semana eram internos, pois sempre há a necessidade de fazer os relatórios e pegar nova carga de expedientes.


O intrigante era o fato de realizar o serviço sozinho. Disso eu me lembro bem. Aquele ano de 1997 foi muito solitário...mais ainda, pelo fato de eu não ter um telefone móvel, para tirar possíveis dúvidas com o Delegado Poubel ou com os escrivães do seu staff.


Quando eu organizava as intimações para a área da zona sul do Rio, caminhava horas sem parar. Percorria roteiros que me faziam percorrer os bairros mais bonitos da cidade. Era uma escolha minha...Dezenas de intimações e ofícios...locais próximos uns dos outros...dificuldades brutais para estacionar... Cheguei à conclusão que à pé seria mais sensato.


Assim que cheguei em Niterói, pedi para que as intimações da Delegacia fossem concentradas em mim. Primeiro, porque os antigões não davam muito espaço para nós, os novatos, em termos de investigações e Ordens de Missão. Eu sempre tive a impressão que estava passando por um processo sério de observação, por parte deles. Segundo, porque eu me organizei de tal forma, que voltei a dar aulas de física em algumas escolas. Naquela época, o salário seria, em valores de hoje, uns três mim reais. E eu, com uma filha que precisava operar o coração, sem cobertura do plano de saúde, passava por grandes dificuldades. Graças a ser o “intimador louco” de Niterói, passei a ter algum espaço para respirar.


Como eu achava que conhecia bem Niterói e São Gonçalo, acreditei que não teria a menor dificuldade para achar os endereços das intimações. E na Delegacia de Niterói, as intimações são excessivas. Com mais de quatro mil inquéritos, imaginem a quantidade de documentos desse tipo, que eram ( e são, ainda ) produzidos pelos Escrivães.


Só que, eu apenas ACHAVA que conhecia Niterói e São Gonçalo...Na verdade, passei a conhecer durante os dois anos que passei SOZINHO, trabalhando na função de localizar endereços e pessoas nas duas cidades. Depois disso, tornei-me até referência na descentralizada, pois apenas eu conhecia as cidades de maneira profunda, sabendo nomes de ruas e referências diversas.


Mas existe um lado profundamente negativo, no trabalho de entregar intimações. Boa parte dos policiais alvejados na rua, quando estão trabalhando, estão procurando endereços ou entregando as famosas intimações. Em Niterói mesmo existe o caso dos APFs Machado e Assis, capturados no asfalto, nas imediações do Morro Menino de Deus, e que foram barbaramente torturados antes de serem assassinados pelos criminosos que dominavam a comunidade na época. É um trabalho, APARENTEMENTE, tranqüilo. A atenção deve ser constante.


Eu mesmo fui rendido duas vezes e escapei, talvez pelo fato dos bandidos acreditarem que eu estava ali para entregar um documento eleitoral ( essa era a desculpa que eu mais dava ). Minha aparência também me ajudava. Os longos cabelos na altura do ombro, afastavam de mim o estereótipo de policial federal.


Muitas vezes, cumpri minhas missões de bicicleta...fui confundido por porteiros e zeladores com entregador de farmácia, ou de locadora, ou qualquer coisa parecida. Mas, apesar de ser um trabalho solitário e de pouca afinidade com as missões policiais puras, fez-me passar longas horas do dia sozinho comigo mesmo. E isso sempre faz bem ao homem.


Depois de algum tempo, um parceiro de trabalho foi colocado para me ajudar. E aí, pela primeira vez, vi a face da morte de verdade, quando fomos rendidos por traficantes, às 16h, em um local residencial, e esses mesmos traficantes abriram fogo contra nós...Já escrevi sobre isso por aqui...


Mas o fato de ser o “intimador” da Delegacia, jamais impediu as chefias de me escalarem para as grandes operações...E assim segui...Tinha muitas razões, além do tempo para dar aulas, para continuar trabalhando em um ofício, aparentemente tão inglório para um policial. Quando vocês, que lêem este blog, estiverem do lado de cá dos portões da ANP, não terei o menor problema em contar...Mas, durante muito tempo, acreditem, foi uma escolha minha...

4 comentários:

  1. Caramba, Sandro. Abordado por traficantes, tiros trocados...
    Essa é a prova real de que a polícia federal, apesar de qualidades e glamour, não deixa de ser POLÍCIA!
    É preciso ter certeza desta opção: ser policial.
    Imagino que a situação deve ter sido tensa. Mas faz parte. Nem só de "roupa preta, óculos escuros e distintivo" vive o policial. Há muito trabalho e risco também. Sempre atentos.
    Muito bom o post, Sandro. Bem esclarecedor, para nós aqui de fora.
    Fique com Deus.
    Abçs.

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  2. Grande Sandro!

    Obrigado novamente pelas informações sobre os serviços e atividades que a PF realiza.

    Fiquei curiso sobre os "outros" motivos, hehe, mas até imagino o que possa ser...

    Grande abraço.

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  3. Isso mesmo SANDRO!
    Mostra para qualquer vagabundo com acesso à internet como é feito o trabalho policial.
    Assim eles podem dificultar ainda mais o seu, o meu e o trabalho de todo mundo que bota a cara na rua enfrentando a bandidagem.
    Parabéns!

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  4. Pimentel,

    Vou encarar como piada, o seu comentário

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