terça-feira, 23 de junho de 2009

Minha Vida na Polícia Federal: Fator Surpresa


Já mencionei aqui, que durante doze anos eu ia e voltava para a Delegacia de bicicleta. Minha casa fica a pouco mais de cinco quilômetros de distância do trabalho e o trânsito de Niterói é caótico. De carro, levo mais de meia hora para percorrer esses cinco ou seis quilômetros. Os retornos para casa eram particularmente “desestressantes” pois, apesar de gastar dez ou quinze minutos a mais, fazia questão de pedalar pelo calçadão da Praia de Icaraí. Essa praia, aliás, tem uma das vistas mais belas do mundo. De lá é possível avistar bem de perto, cartões postais como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o MAC, Museu de Arte Contemporânea, que alguns chamam carinhosamente de “disco voador”.
Em um belo dia do inverno de 1999, eu já estava lotado na Delegacia de Niterói, e retornava para casa, pedalando pela avenida mais movimentada da cidade. Na época, usava um “walkman”, que tocava as belas ( porém desconhecidas para o público em geral ) músicas do BoyzIIMen. De repente, apesar do headphone que eu usava, ouvi um grito altíssimo e senti um empurrão, que me fez cair da bicicleta, felizmente, sem me machucar. Rapidamente peguei a bicicleta novamente, a tempo de identificar o carro de onde partiu o grito e o empurrão. Era uma Kombi, possivelmente usada para lotação.
Subi na bike e comecei a pedalar novamente. Àquelas alturas, eu já havia percebido que o lento trânsito da Avenida Roberto Silveira, iria me possibilitar alcançar a Kombi onde estava o autor do “atentado”. Sem muita pressa, ultrapassei meu “alvo” e me coloquei uns cinqüenta metros à frente. Coloquei a bicicleta na calçada, saquei meu saudoso 357, empunhei-o com a mão direita, enquanto a esquerda ostentava a carteira de polícia da forma mais visível possível. Quando o carro que ia logo à frente da Kombi passou, coloquei-me à frente dela, sinalizando para que ela encostasse ( o lugar onde eu estava tinha um recuo e eu não queria atrapalhar ainda mais o trânsito ).
Quando a Kombi parou, percebi que estavam nela apenas o motorista e um rapaz de 20 anos, que foi a pessoa que me derrubou da bicicleta. Identifiquei-me, pedi os documentos ao mesmo tempo em que pedi,ainda com a maior educação, para que os dois descessem do carro. Para a minha segurança e dos cidadãos à minha volta, coloquei os dois na lateral do veículo oposta à avenida, para verificar se qualquer um deles estava armado. Logo após, enquanto analisava os documentos, todos irregulares , do veículo e do motorista, explicava para os dois que eu era o ciclista que havia sido derrubado sem razão, um pouco mais atrás. Em seguida, ao abrir a Kombi, constatei a presença de um sem fim de artigos importados, tipo “Made In China”, sem o menor vestígio de regularidade. Naquele momento, o motorista já xingava o rapaz que havia me derrubado. Na verdade, faltou pouco para espancá-lo. Chegou a dar uns tapas nele, lembro-me bem.
Tenho certeza de que aqueles dois passaram a pensar sempre duas vezes antes de tripudiar sobre quem quer que seja. Jamais imaginaram que o humilde ciclista era um policial federal. Menos ainda, que seriam parados mais à frente e teriam suas mercadorias apreendidas. Foram levados para a Delegacia. Foi instaurado inquérito.
Eu mesmo tirei lições disso tudo. Nunca julgar as aparências. Meu desapego ao material e apreço pela vida saudável, pedalando pela cidade, já me levou a prender um ladrão de carros, no momento do assalto. Mais uma vez, o inofensivo ciclista se materializou em um policial, sem quem ninguém esperasse. Nem o próprio ciclista...

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu estudo no Mv1, no qual você e o Alexandre deram uma palestra incrível, onde muita gente incluse eu se sensibilizou. É estimulante conhecer pessoas que não usam o álcool por opção e não porque tem uma religião que não permite, são pequenas coisas que mudam o nosso pensamento... com isso a gente passa a acreditar um pouco mais na sociedade, e eu espero poder contribuir nisso tudo, repassando o que foi dito por vocês. Quero parabenizar o trabalho que é excelente, e desejo que sejam feitos vários pedidos de palestras para vocês, para que mais jovens e crianças tenham consciência do mal que todo esse tipo de droga causa. Sucesso, Jaqueline Lessa!

    abraço

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  3. Excelente post.. Um pequeno ato que trouxe grandes consequências.
    Grande Abraço.
    Maha.

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  4. Legal, mas se fosse um cidadao comum, teria q arquivar o empurrao. Isso prova q os policiais têm posição privilegiada perante a sociedade, pois possuem porte e podem fazer uso de suas armas, mesmo quando nao ha necessidade para tal, como foi o caso.

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  5. uma linda história
    sinceramente é um absurdo que julguem as pessoas mal.
    que sorte a sua e vc deve ser um ótimo policial.
    parabéns !!!

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  6. Assim você me faz querer entrar pra "corp" na "tóra", meu velho... Quem tem um pouco de herói em si, sempre quer fazer parte de uma instituição como a P.F. Ótima postagem!!!

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