domingo, 22 de junho de 2014

Starshaw. Capítulo II


II



O Vale das Cobras não era um lugar que pudesse ser chamado de ponto turístico dos Estados Unidos. Encravado no coração do país, localizava-se pelo menos entre três estados e nenhum deles reivindicava autonomia na região. Muito pelo contrário. Faziam questão de empurrar as responsabilidades sobre aquele lugar infernal para os vizinhos.

A pequena sombra que passava velozmente sobre o solo pedregoso do vale, que estava  situado entre várias séries irregulares de pequenas montanhas e que era cortado em quase toda a sua extensão pelo Rio Kawan, denunciava a presença de uma aeronave manobrando na área.

O antigo helicóptero militar Huey da Força Aérea voava a uma pequena altitude, seguindo o curso do rio, que era navegável na sua maior parte. Mas isso não significava muita coisa, pois, à exceção de alguns remanescentes de uma antiga tribo Sioux, que habitavam a região, ninguém fazia muita questão de navegar aquelas águas escuras e extremamente quentes. Os próprios índios do vale costumavam dizer que  as águas do Kawan eram infestadas por vermes capazes de devorar um búfalo inteiro em poucos instantes.

Após mais algumas manobras entre as rochas do vale, o Huey sobrevoou uma série de construções, que poderiam facilmente passar despercebidas por ali. Havia quatro grandes galpões construídos em padrão militar, com camuflagem parda, própria para a região. As edificações se estendiam por uma grande área protegida por uma cerca eletrificada, com postos de sentinela dispostos a cada cem metros. Na parte de trás das instalações, que ficava mais ao norte, um pequeno pier com uma guarita de segurança se prolongava na direção do rio. Próximo à base das elevações rochosas, que serviam como uma verdadeira muralha natural, um pouco mais a oeste, um conjunto de gigantescas antenas de rádio destacava-se, com seus enormes ouvidos voltados para o infinito.

Tudo isso seria praticamente invisível aos passageiros do Huey, se não fosse pelo fato do piloto do helicóptero já estar se preparando para pousar a aeronave. No solo, um oficial de ligação e pouso orientava a descida no heliponto, enquanto outro oficial observava a manobra de uma área de escape. Em poucos instantes o piloto já desligava os rotores. Ao mesmo tempo, o oficial que observava a aeronave aproximou-se, indo em direção à porta. Após um rápido movimento, a porta corrediça se abriu e os dois passageiros do helicóptero surgiram.

_ Major !- exclamou o oficial, executando uma continência – Primeiro tenente Adam Clayton, do Segundo Esquadrão Tático, senhor!

O gigantesco homem louro, com os cabelos cortados quase rentes ao couro cabeludo, retribuiu a continência com um gesto de cabeça, ao mesmo tempo em que procurava observar aquele lugar perdido no meio do nada. Bem atrás dele, já havia descido do helicóptero a segunda passageira. Uma mulher alta, de cabelos castanhos bem claros e de traços eurobalcânicos, que também observava atentamente o lugar, na inútil tentativa de descobrir onde estava.

_ Major, seja bem vindo à base do Projeto Livro Azul da Força Aérea, senhor.- prosseguiu o oficial – Por favor, queiram me acompanhar. O nosso comandante os está aguardando.

O louro observou, por detrás de seus óculos de grau, o jovem oficial caminhar na direção de um dos galpões da base e rapidamente começou a seguí-lo, acompanhado pela mulher alta.

Ao entrarem no galpão, os visitantes logo perceberam a sofisticação do lugar. A sala possuía, por todos os lados, grandes telas de controle, que recebiam informações instantâneas dos satélites militares americanos. No centro da sala, um gigantesco mapa eletrônico monitorava toda a movimentação nos céus americanos a cada segundo. Ali era feita uma varredura de qualquer objeto que voasse no espaço aéreo dos Estados Unidos. O mais insignificante movimento fora dos padrões não passava despercebido pela fina malha da rede de triagem de informações da Força Aérea. No centro do galpão havia um elevador que, pelas conclusões do louro e sua acompanhante, só poderia levar ao subsolo daquele lugar. Seguindo os passos do tenente Adam Clayton, os dois entraram no elevador, que, em instantes, começou a descer com uma velocidade extremamente alta.



Quando chegaram ao último nível, a surpresa foi ainda maior. Atravessaram uma sala de controle muito parecida com a primeira, que, ao invés de um grande mapa eletrônico dos Estados Unidos, possuía vários deles, em tamanho gigante, de países aliados, ou não. Muitos membros das forças armadas já haviam ouvido falar sobre o Projeto Livro Azul. Mas jamais seria possível imaginar que o governo americano estendesse seus olhos para vigiar os céus de outros países. Isso certamente acarretaria uma série de problemas diplomáticos, se por acaso viesse a se tornar público.

Alheios às implicações internacionais que aquele projeto podia causar, o tenente Clayton e seus dois visitantes começaram a caminhar por um longo corredor, ao som dos seus próprios passos no piso metálico. Pararam em uma ante-sala, quando o oficial acionou um interfone fixado à parede. A conversa não durou mais que poucos segundos e o tenente, logo que desligou o aparelho, voltou-se imediatamente para o louro e a mulher.

_ Major. Senhorita.- iniciou, polidamente – O general Otto J. Johnson os aguarda na sala que fica bem à frente. Queiram entrar, por favor. Enquanto isso, estarei aqui aguardando instruções posteriores.

O louro avançou na direção da porta metálica, sem maçaneta e mesma se abriu automaticamente. Cruzaram um pequeno espaço e outra porta automática se abriu, fazendo surgir na frente dos dois, a figura alta e empertigada do velho oficial.

_ Bem vindos à mais secreta base de pesquisas dos Estados Unidos, major.- disse o general, projetando-se na direção do homem louro, no intuito de cumprimentá-lo.- Sou o general Otto J.Johnson da Força Aérea, chefe do Projeto Livro Azul e oficial encarregado desta base.

Com um gesto, o general sugeriu que os dois sentassem em um sofá, que havia próximo a uma das paredes da sala. Johnson era um homem alto, com uma compleição física forte, que não aparentava ter mais de cinqüenta anos . Possuía os cabelos completamente grisalhos, assim como o farto bigode que usava. Os olhos negros por trás das lentes dos óculos de grau eram de uma frieza cortante. Típico dos oficiais generais que faziam parte do Estado Maior do Pentágono.

_ Senhor – iniciou o louro – Talvez se faça necessário apresentar minha amiga e sócia, Alexandra Voskov.

_ Estou ciente, major. – respondeu o general, aparentemente sem demonstrar surpresa.- Fui muito bem informado a respeito do outrora glorioso major Antony Cooky, dos Fuzileiros Navais e sua...amiga, Alexandra Voskov, conhecida nos meios militares como a Leoa da Rússia. – a voz do velho oficial soava gélida e inflexível.- Não foi sem motivo que vocês fizeram uma viagem tão longa como essa.

Apesar da impassividade de sua expressão, Cooky começava a não gostar do que estava acontecendo ali. Se aquele general sabia tanto a seu respeito, era muito estranho que o estivesse tratando com tamanho respeito militar. Desde a sua saída do Corpo de Fuzileiros Navais, era duramente repudiado pela maioria de seus ex-colegas de farda.

_ General, agradeço toda a deferência dispensada a mim e a Alexandra. Mas, na verdade, gostaríamos de conhecer a razão de nossa presença neste fim de mundo. Porque está claro que este lugar é um grande centro de análise de rastreamento aéreo. E rastreamento aéreo, definitivamente não é a minha especialidade.

Com os olhos fixos no ex-marine, Johnson se levantou calmamente e, ao mesmo tempo em que acionou a tela de projeção que ficava logo atrás de sua mesa, falou com sua voz completamente desprovida de qualquer tipo de emoção.

_ Major, não foi por acaso que descobrimos seu nome nos computadores do Pentágono. Se está aqui, é porque detém conhecimentos que nos interessam em muito...

_  Não acredito que possa contribuir em seu trabalho de rastreamento aéreo, senhor. Se conhece tanto sobre mim, sabe que sou um comando, um soldado de elite. Fui treinado para o combate aproximado, demolição, sabotagem e tudo o que uma guerra entre homens exige. Os radares eu posso perfeitamente deixar para os seus homens de uniformes engomados. – a voz de Cooky já demonstrava grande impaciência, quando interrompeu o discurso do general, que não pareceu se importar com aquelas palavras.

_ Sabemos de seu passado nos Fuzileiros Navais, major. – continuou o velho oficial. – Desde a sua performance como comandante da unidade de elite conhecida como Força Zero, que se tornou uma verdadeira legenda nas forças armadas, até o seu envolvimento com a oficial da Spestnaz, conhecida como Leoa da Rússia. Certamente, sua união com a senhora Voskov foi um dos marcos mais importantes de sua bem-sucedida carreira de mercenário.

Cooky e Alexandra trocaram um olhar de surpresa.

_  Mas suas conhecidas habilidades como soldado de elite, realmente, não nos interessam muito no momento. É óbvio que os objetivos principais de nossas pesquisas divergem completamente daquilo que o senhor sabe fazer de melhor. Mas existe um caso específico, no qual o senhor poderá nos ser muito útil.

Nesse instante a intensidade da luz da sala foi diminuída, deixando o brilho da tela de projeção tomar conta do ambiente. A primeira imagem mostrada era o que parecia ser os destroços de uma aeronave. Mas, tanto Cooky como Alexandra foram incapazes de determinar que tipo de aeronave era aquela. Nunca haviam visto nada parecido.

_ Senhores. – o general começou a explicar. – Há quatro semanas, dois caças da Força Aérea em uma missão de rotina sobre o Atlântico, perseguiram e abateram a aeronave que vêem na tela. Trata-se de uma aeronave alienígena que voava sobre a área conhecida como Triângulo das Bermudas, próxima à costa da Flórida.

Cooky e Alexandra olhavam para a tela, quase paralisados, achando tudo aquilo um grande absurdo. A começar pela frieza cortante do general, lidando com um assunto como aquele, capaz de causar a maior revolução de conceitos já experimentada pela humanidade. Se aquele fato viesse a se tornar público, pensavam os dois quase simultaneamente, o mundo passaria por mudanças de proporções inimagináveis. Aparentemente alheio à gravidade do fato, Johnson continuava sua explanação.

_ Reparem no desenho de insígnias, no alto à direita, no que parece ser uma parte da asa da aeronave.

No alto, à direita, uma parte dos destroços apresentava o desenho de uma lua minguante, com um círculo próximo de cada ponta, numa tonalidade de cor muito próxima do vermelho.

_ Há vinte e cinco anos, eu mesmo comandei a captura de  uma espaçonave alienígena com essas mesmas insígnias, no deserto de Nevada. – o general falava automaticamente, sem se preocupar com a reação de seus visitantes, que não conseguiam mais tirar os olhos da tela. Em seguida, após um comando dado por Johnson, a imagem mudou, passando a mostrar um corpo de um homem de aproximadamente um metro e oitenta, vestindo um uniforme negro, que detinha as mesmas insígnias encontradas na nave.

_ Esse é o corpo do piloto da nave alienígena que abatemos na Flórida. – explicou o general. – Apesar dos nossos esforços, não foi possível mantê-lo com vida. Mas no final, a perda desse extraterrestre mostrou-se irrelevante diante de todo o resto.

O ex-fuzileiro e sua amiga já se encontravam totalmente hipnotizados por aquela história. As palavras do general ecoavam em suas mentes, ao mesmo tempo em que procuravam descobrir onde suas presenças se encaixavam naquilo tudo.

_ Junto com a primeira espaçonave, há vinte e cinco anos, capturamos uma alienígena, que, ao que parece, era a sua única tripulante. Infelizmente, a jovem extraterrestre morreu durante os procedimentos de captura. Era uma figura extremamente hostil e ofereceu grande perigo aos homens da equipe que eu chefiava naquele dia. – Naquele momento, um estranho e débil sorriso tomou o frio rosto do general Johnson, que logo voltou a se concentrar na estória. – Após ser examinada pelos cientistas do Projeto Livro Azul, contatou-se que aquela mulher, se é que podíamos chamá-la assim, havia dado à luz poucas horas antes de sua morte. – a menção dessas últimas palavras fez com que o velho oficial deixasse transparecer uma ponta de raiva em sua expressão. Seus olhos pareciam se perder em uma época que havia ficado para trás há muito tempo. Era como se ele estivesse vivendo, naquele momento, o que relatava a Cooky e sua companheira.

_ Apesar das buscas que realizamos na região, não encontramos um vestígio sequer da criança. – arrematou o general.

Cooky olhava para Johnson como se estivesse perguntando em voz alta o que ele tinha a ver com tudo aquilo. Estava estupefato com tudo, é verdade. Mas não conseguia entender o que um mercenário como ele, poderia ser de alguma utilidade num caso como aquele.  Como se entendesse a postura interrogativa do ex-fuzileiro, o velho oficial apressou-se em continuar.

_ Quando falei que a vida do piloto da espaçonave que nós acabamos de abater, não teria grande importância, foi porque os computadores, ou seja lá o que era aquilo, que faziam parte do equipamento de bordo da espaçonave alienígena, foram recuperados pelas nossas equipes de resgate. – nesse momento, o general foi tomado por uma leve euforia. – Após três semanas de estudos incessantes sobre as informações contidas naqueles dispositivos, descobrimos que essa espaçonave fazia parte de uma expedição extraterrestre que se encontra na Terra, a fim de localizar justamente o filho da alienígena morta há vinte e cinco anos.

_ General. – interrompeu Cooky – Tudo isso é incrivelmente fantástico. Se alguém me contasse essa história eu certamente não acreditaria. Não tenho dúvidas quanto à importância desse fato para a segurança dos Estados Unidos e do resto do mundo. Mas ainda não consigo imaginar, nem de longe, em que eu possa lhe ser útil nesse caso. – ao terminar de falar, Cooky olhou para Alexandra e os dois acenaram afirmativamente, como se as palavras do ex-fuzileiro tivessem saído das bocas de ambos.

Acionando o controle da tela de projeção mais uma vez, o general Johnson fez surgir um outro quadro, que mostrava a foto de um jovem de longos cabelos negros. Ao contrário das outras vezes, a visão daquela fotografia causou  um misto de espanto e ira no ex-marine e em Alexandra.

_ Mas o que esse filho da puta está fazendo aí? Que brincadeira é essa, general? O que está acontecendo aqui? – Cooky não conseguia sequer articular o raciocínio.

_ Muito bem , major. – retornou o general. – Eis a razão de sua presença aqui. A análise das informações obtidas na segunda espaçonave, permitiu-nos conhecer a identidade do filho da alienígena de vinte e cinco anos atrás. O destino foi irônico em me manter durante tanto tempo procurando esse homem, enquanto ele passou anos e anos bem debaixo do meu nariz. Até aqui, na base do Projeto Livro Azul ele já esteve.

_ Mas isso não é possível ! Não pode ser verdade! – Cooky estava completamente transtornado diante daquela imagem. – Esse miserável acabou com a minha vida, com a minha carreira, com tudo ! Eu poderia arrancar seu coração com minhas próprias mãos!

_ E é mais ou menos isso que queremos de você, major. Capturar esse homem antes que a expedição alienígena o faça, tornou-se uma questão de honra para mim. Após vinte e cinco anos, isso virou praticamente a razão da minha vida. – novamente, o olhar de Johnson parecia observar fatos vivenciados há muito tempo. – Reuna seu grupo, major. Terá todos os recursos que precisar para trazer esse homem ... não importa como. Apenas traga-o antes que seus amigos ETs o encontrem.

Após essas palavras, o general Johnson pareceu imergir em seus próprios pensamentos, com o olhar fixo na imagem do jovem de longos cabelos negros e olhos ligeiramente puxados para os lados. Sua atitude demonstrava claramente que não havia mais nada a ser dito ali.


Percebendo isso, Cooky e Alexandra levantaram-se ao mesmo tempo em que seus olhos se cruzaram. Olhando pela última vez para a imagem projetada, o ex-fuzileiro sorriu de maneira sádica, como se estivesse agradecendo ao destino por colocar aquele velho general em seu caminho.


Starshaw. Capítulo I

I



As tardes de verão naquela região do Atlântico Norte pareciam se repetir exatamente da mesma forma,  num ciclo interminável. A tranquilidade da união azul de céu e oceano só foi interrompida pelo estrondo causado pela passagem de dois aviões de caça F-16 da Força Aérea dos Estados Unidos, que voavam a uma velocidade supersônica.
As missões de patrulha da costa eram comuns naquela região da Flórida, entre o Mar das Caraíbas e as Ilhas Bermudas. No comando da missão,  o major John “Coyote” Scott percebeu que já havia alcançado o limite máximo de vôo e comunicou ao controle em terra que iria iniciar a manobra de retorno.
_ Homem de Ferro, aqui é Águia 1. Estamos sobrevoando a faixa limite da missão. Posição quadrante 56N34L. Peço permissão para iniciar o procedimento de retorno. – disse o major, através do canal de rádio.
_ Afirmativo Águia 1. Confirmando limite máximo na posição. Feche rumo    3-1-5 e inicie a manobra de retorno.- respondeu o controlador em terra, que após um pequeno intervalo arrematou – E aí Scott? Muitas novidades no setor mais “movimentado” do oceano?
_ Muito engraçado Mike...- rebateu o piloto – Eu e o Mercedes só não estamos dormindo porque temos que ouvir sua voz o tempo inteiro. Dezoito anos na Força Aérea para ficar contando as marolas do oceano...
_ Pelo menos ninguém vai derrubar seu avião como aconteceu na Guerra do Golfo...
_ Michael, eu sou piloto de caça. Escolhi essa carreira quando você ainda se trancava no banheiro com revista de mulher pelada. Participei de centenas de missões de guerra pelo mundo inteiro...Sei que o trabalho de patrulha é de suma importância. Mas ninguém pode me pedir para achá-lo agradável.
John Scott III era um dos pilotos mais condecorados da Força Aérea americana. Oriundo de uma família de militares, desde muito cedo já mostrava interesse em seguir o caminho das armas. Seu pai, John Scott Jr., voou nos céus do Vietnã, sendo um dos maiores recordistas de aviões inimigos abatidos pela Força Aérea dos Estados Unidos.
O velho coronel John Scott, seu avô, havia se tornado uma verdadeira lenda, na antiga aviação do exército, por sua participação decisiva nas campanhas na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.
Com uma linhagem dessas, o destino de John Scott III não poderia ter sido diferente. Participou de todas as campanhas dos Estados Unidos no Oriente Médio, destacando-se sempre pela ousadia e espírito voluntarioso. Abatido no Iraque, ficou prisioneiro da guarda revolucionária iraquiana durante uma semana, quando foi libertado por um comando da Marinha, conhecido nos meios militares como Unidade 4. De volta aos Estados Unidos, foi condecorado com o grau máximo concedido a militares da Força Aérea.
_ Desculpe, major. Sabemos aqui, o quanto deve ser entediante para um piloto com o seu passado, efetuar patrulhas intermináveis no Atlântico.
_ Desculpas o escambau, meu camarada!!- na mesma faixa do canal de rádio, Andrew “Mercedes” Wilder, o jovem piloto parceiro de Scott na missão de patrulha, aproveitava para mandar o seu recado.- Você só pode sacanear a gente porque levanta a hora que quer para tomar água ou dar uma mijada. Se estivesse aqui em cima e sentisse o tédio...É céu e mar para todo lado.
Ao contrário do major Scott, Andrew Wilder havia entrado para a Força Aérea quase por acaso. Seguindo o entusiasmo de um amigo de escola, Andrew se alistou na Academia da Força Aérea, sem grandes pretensões. Por uma das grandes ironias do destino, o amigo que tanto o incentivou foi reprovado nos exames de admissão. Apesar da vocação quase nula para a carreira militar, acabou entrando para a Força Aérea. Hoje, aguardava com ansiedade o fim de seu compromisso com as Forças Armadas, para ingressar no segmento da aviação civil.
Os dois pilotos iniciavam os procedimentos para o retorno à base, quando os radares das aeronaves alertaram os militares para uma iminente colisão. Para a surpresa de “Coyote” e “Mercedes”, uma terceira aeronave surgiu do meio do nada, passando a poucos metros dos dois caças, a uma velocidade incompatível com o inexistente ruído que apresentava.
_ Puta que pariu! – exclamou “Mercedes”.

Mesmo pelo rádio, o controlador de vôo pôde perceber o espanto na voz do piloto. Por longos segundos o silêncio no rádio denotava a tensão do momento. Os dois pilotos e o pessoal do controle de vôo em terra, acompanhavam estupefatos, o objeto voador que se deslocava à frente dos F-16. Ninguém ali havia visto nada parecido com aquilo. Através do canal de comunicações, John Scott solicitou o código de segurança máxima, informando à base, na Flórida, sobre o inesperado encontro com o aparelho voador não identificado. Em poucos segundos a sala de controle estava repleta de oficiais, inclusive o comandante da base, o tenente-coronel Robert Caldwell, que mantinha os olhos fixos nas imagens transmitidas pelas câmeras das aeronaves.

_ Atenção Águia 1. Estamos em código de segurança máxima – comunicou o controlador em terra.- Nosso canal de comunicações está fechado a qualquer outro sinal. Estamos recebendo as imagens das câmeras de vídeo dos dois Falcons, sob proteção de contramedidas eletrônicas nessa faixa.

_ Afirmativo, Homem de Ferro. Manteremos uma distância de segurança do alvo, sob o controle do radar. Informe sobre o procedimento a ser tomado.

_ Afirmativo.

Apesar dos dezoito anos de experiência na Força Aérea, o major John Scott jamais sentira uma descarga de adrenalina tão grande em suas veias. Já havia ouvido falar de várias histórias sobre encontros de pilotos, tanto da Força Aérea como da Marinha, com Objetos Voadores Não Identificados. Mas nunca imaginou que aquilo pudesse estar acontecendo com ele naquele momento. Apesar do misto de excitação e medo, não conseguia tirar os olhos do estranho aparelho com asas em formato de U, que voava absolutamente sem ruídos, utilizando uma forma de propulsão diferente de tudo o que havia visto até então. Definitivamente, aquilo não poderia ser deste mundo.
No outro caça, “Mercedes” não conseguia controlar sua ansiedade. Seu corpo inteiro tremia e o suor já deixava sua roupa de baixo completamente molhada. Assim como Scott, o tenente Wilder não conseguia tirar os olhos do estranho objeto voador. Os dois aviões de combate estavam voando a uma velocidade extremamente alta, para poder acompanhar de longe o aparelho. Tal situação levava ao limite o equipamento dos F-16, além do quase insuportável esforço físico que uma velocidade daquelas levava a um ser humano. Esse conjunto de coisas contribuíram muito para piorar o estado mental de Andrew Wilder.
Apesar da situação inusitada que vivia, o major Scott demonstrava uma tranquilidade absoluta, que era facilmente perceptível pelo tom de voz com o qual mantinha contato com o comando da base, na Flórida. E essa tranqüilidade contribuiu muito para deixar o ambiente na sala de controle, um pouco menos tenso. A essas alturas, o tenente-coronel Caldwell já estava em linha direta com oficiais do Estado- Maior da Força Aérea, que, através de transmissão digital, também acompanhavam as imagens captadas pelas aeronaves de combate.
Em uma grande sala do Pentágono, o grupo de oficiais generais do Estado-Maior acompanhava tudo. Sob o comando do general Otto J. Johnson, passaram a orientar os procedimentos a serem tomados pelos pilotos envolvidos naquela situação.

_ Muito bem, major. – falou o general -  Mantenha o procedimento, seguindo o aparelho a uma distância segura. Estamos monitorando toda a sua movimentação através do radar e das imagens das câmeras dos F-16.

De certa forma, a transferência do controle da missão para os generais do Estado-Maior, tirava uma grande responsabilidade dos ombros dos dois pilotos, apesar da surpresa inicial que tal atitude causara. A partir do momento em que os oficiais do Pentágono passaram a comandar diretamente aquele vôo, os dois caças tornaram-se apenas prolongamentos dos membros daqueles homens que detinham o poder de tomar as decisões relativas à segurança nacional dos Estados Unidos da América.
Aparentemente alheia à tudo, a estranha aeronave continuava a cruzar os céus, afastando-se da costa da Flórida no rumo Sudeste. De repente, começou a baixar rapidamente de altitude, como se estivesse realizando um mergulho em direção ao mar. Quase que imediatamente, os dois caças imitaram a manobra, seguindo o aparelho a uma distância segura de duas milhas. Em absoluto silêncio, numa das centenas salas de controle do Pentágono, os generais acompanhavam cada instante do vôo. A introspecção reinante no recinto só foi quebrada pela voz do major John Scott, que desta vez, não parecia tão calma.

_  General, aqui missão Águia. O alvo iniciou um rápido mergulho rumo ao mar e... – por alguns segundos o piloto não foi capaz de emitir uma palavra sequer – Mas que diabo é aquilo? – Scott mal podia acreditar no que seus olhos contemplavam. À meia distância entre o objeto não identificado e o mar, um ponto de luz azul surgiu, para, segundos depois aumentar de tamanho, fazendo com que uma espécie de buraco surgisse no céu.

_ Capitão, vamos sair daqui rápido!! Aquela coisa vai pegar a gente !! – a voz do tenente “Mercedes” evidenciava o pânico que começava a dominá-lo.

_ Missão Águia, informe a situação. A transmissão das imagens das câmeras dos aviões passaram a sofrer uma forte interferência.- apesar da frieza na voz, o general Johnson encontrava-se bastante preocupado com a situação. A aparente perda de controle dos pilotos colocava, mesmo que momentaneamente, a missão em risco. Do outro lado do canal de rádio, John Scott e Andrew Wilder pareciam não dar ouvidos ao chamado do general, que se limitava a ouvir o diálogo entre os dois.

_ Jesus Cristo! Que luz é aquela? O céu está se abrindo ! Parece que há um buraco no meio dele ! – Scott quase berrava. Nunca em toda a sua vida dentro e fora da Força Aérea, havia visto nada parecido com aquilo.- É  um buraco no céu mesmo, como se ele estivesse rasgado!  E o aparelho vai entrar lá!


_ Major, eu não vou chegar mais perto ! – a voz de “Mercedes” estava aterrorizada – Vamos abortar!!

A essas alturas o medo já havia dominado completamente o jovem piloto. Do outro lado da frequência, apesar do silêncio, os olhares dos generais pareciam transmitir em viva-voz a decisão daquele Estado-Maior. Traduzindo em palavras a vontade dos oficiais generais, Otto J.Johnson emitiu a mensagem:

_ Atenção missão Águia . Código vermelho Alfa 40. Abatam o aparelho não identificado. Repetindo. Abatam o aparelho não identificado – ordenou o velho oficial, sem mostrar qualquer hesitação.

_  Afirmativo senhor! – apesar do pânico inicial, o comandante da missão ainda estava suficientemente consciente para cumprir uma ordem. Meio segundo para ativar o sistema Fox de mísseis ar-ar. Mais meio segundo e dois mísseis Fox partiam das asas do F-16, atingindo de modo preciso o aparelho não identificado, que explodiu numa enorme bola de fogo, para depois cair como um meteoro nas águas do Atlântico.

Minutos depois, uma equipe de resgate e busca da Marinha já sobrevoava a área da queda, enquanto vários barcos da Guarda Costeira já se deslocavam no intuito de montar um cerco em torno do local, para impedir a aproximação de qualquer outra embarcação.
Na base da Flórida, os dois pilotos foram recebidos por uma escolta e levados à presença do comandante. No mesmo dia, o general Otto J.Johnson, em pessoa , compareceu à base. Após cumprimentar os pilotos pelo sucesso da missão, determinou ao comandante da base que os mantivesse incomunicáveis em seus alojamentos, até que o Estado-Maior chegasse a alguma conclusão sobre o futuro dos dois.


Duas semanas depois, as famílias do major John Scott e do tenente Andrew Wilder recebiam comunicados da Força Aérea americana, em que eram avisadas que os dois oficiais iriam ficar alguns meses envolvidos em uma missão confidencial.  

sábado, 21 de junho de 2014

SEGURANÇA PÚBLICA x CARGO ÚNICO nas polícias................a urgência de deixar o século XIX para trás

Nota de Esclarecimento – Segurança Pública
20.06.2014

A ANPR publicou nesta sexta-feira, 20, nota de esclarecimento sobre sua atuação no Congresso Nacional em favor de melhorias para a segurança pública. Confira a íntegra do texto:

Às vésperas do primeiro aniversário do funeral da PEC da Impunidade, consolidou-se, por senso comum, a percepção de que a segurança pública está em crise, motivando intenso e profícuo diálogo dos mais variados setores públicos – carreiras policiais civis e militares, Parlamento, Ministério Público – em favor de novas perspectivas que ocasionem o aprimoramento do exaurido modelo atual, para o bem da sociedade brasileira.

A Polícia Federal é tradicional parceira do Ministério Público Federal no enfrentamento da criminalidade e detentora de inegável prestígio junto a este. Todavia, a permanente e sólida interlocução que se estabeleceu com seus policiais escrivães, papiloscopistas e agentes (EPAs) não se verificou com o estamento dos delegados, cujo grêmio associativo vem recusando sistematicamente qualquer diálogo com aquelas importantes carreiras policiais – aliás a justo título fundamentais ao bom desempenho da atividade policial –, e insiste, infelizmente, em estratégias de desinformação e de pura e simples intimidação das demais categorias policiais.

Ao optar por uma atitude sectária, hostil, isolacionista e auto-vitimizante, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) declinou da outrora inerente legitimidade para promover – e quem sabe até protagonizar – uma inescapável rediscussão da estrutura da Polícia Judiciária da União, fragmentando desta forma uma das mais importantes instituições de nosso Estado. Esta impotência no dialogar é hoje tão notória que a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) foi chamada pelo próprio Executivo – sabe-o a ADPF – para intermediar um bem-sucedido contato entre as carreiras dos EPAs, que permitiu destravar o diálogo e fazer evoluir a reflexão sobre o futuro da corporação e da segurança pública no Brasil.

A ANPR vem discutindo publicamente a estrutura, a carreira e o futuro de uma Polícia Federal eficiente e à altura dos enormes desafios que o século XXI lhe impõe, e que não podem ser enfrentados com base em Códigos arcaicos e estruturas inalteradas centenárias. Mais que isso, e buscando enfrentar os desafios da segurança pública brasileira – que acaba de obter, segundo a última pesquisa do CNI/Ibope, desaprovação de 75% –, vem, com a Confederação Nacional dos Membros do Ministério Público (CONAMP), promovendo reuniões com parlamentares, inúmeros representantes de categorias e de entidades representativas de Policiais Civis e Militares, buscando uma pauta de consenso que permita avançar o debate sobre um tema tão importante para o Brasil. Entre outros assuntos estão o ciclo completo de polícia, mecanismos de integração e coordenação entre as forças policiais, questionamentos sobre o inquérito policial – cuja singular, teimosa e inútil sobrevivência é o réquiem deste modelo – e polícias civis com ingresso único e estrutura de carreira que valorize a formação técnica e a experiência.

Trata-se de temas que, sem exceção alguma, estão em todas as mais bem-sucedidas experiências de polícia no mundo, como Chile e Portugal. É impositivo, em prol do país, discuti-los abertamente; a adesão de praticamente todas as representações policiais brasileiras é prova de sua importância e oportunidade, não devendo ser reduzida a confrontação corporativista (de resto sem sentido, dada a disparidade das categorias). Estas reuniões são públicas, e não há nelas qualquer motivo de sigilo ou temor, a não ser daqueles que, auto-exilados da discussão e devotados a delírios como obter as garantias da magistratura mediante emenda à Constituição (quando se sabe que isso somente é possível mediante aprovação em concurso público para o Ministério Público e o Judiciário), cultuam prioritariamente o passado e a auto-referência, e confinam-se a obstruir o diálogo e achincalhar outros agentes da persecução criminal.

Todos os policiais e todas as categorias de policiais do Brasil – e o Ministério Público brasileiro, na qualidade de titular constitucional da persecução penal – podem, e devem, participar desta reflexão. As portas da Associação Nacional dos Procuradores da República estão abertas a quem quiser dela participar, como já vem ocorrendo, inclusive com o aplauso dos Poderes Legislativo e Executivo. Essa reflexão já proporcionou a gênese de novas proposições legislativas, com o compartilhado propósito de aprimorar as estruturas, dinâmicas e procedimentos da segurança pública no Brasil, sem no entanto dar ensejo a iniciativas contra a sociedade, em defesa única e exclusivamente de infundados privilégios classistas, como quando, sem apoio de qualquer outra categoria policial, tentou-se a exclusividade de todas as apurações criminais para os delegados, com a PEC 37, exorcizada pela cidadania nas ruas e levada a óbito pela Câmara dos Deputados.

O momento é de evolução do perfil do estado brasileiro na segurança pública; assim o exigem o povo e a sociedade brasileiros, fartos dos defensores da ineficiência e da impunidade. A Associação Nacional dos Procuradores da República reitera seu intuito de colaborar para o debate e congratula os expressivos segmentos que, com seriedade e espírito público, têm participado deste elevado debate sobre o porvir.

Alexandre Camanho de Assis

Procurador Regional da República

Presidente da ANPR

domingo, 25 de maio de 2014

Copa do Mundo.........Você que a defende, saiba, que eu respeito você.

Tenho amigos que defendem a copa.
Eu os respeito. Não respeito a realização da copa.
Reclamam da postura arrogante do alemão da FIFA. Quando aceitaram fazer a competição aqui, sabiam que o pacote era completo com esses "maletas" à tiracolo. Ninguém iludiu ninguém.
A FIFA disse: "Eu quero X, Y e Z"
Dissemos: "Amém"
Porque esses que disseram "Amém" por nós, viram nisso MAIS UMA grande oportunidade de enriquecer com dinheiro que era para ser aplicado mesmo em outras coisas.
Mas vamos à realidade?
Quando dizem que a Alemanha não pode falar do Brasil, porque ela mesma não lembra da 2a Grande Guerra, dos campos de concentração e dos fornos, mencionando genocídio, tudo bem...é um fato.
Mas os nossos governantes, até os mais populares, mataram muito mais que dez Alemanhas Nazistas juntas. É um genocídio silencioso, que não é percebido pela maioria, no qual a morte é lenta e agonizante.
Não somos um país em guerra, mas nossas vítimas de assassinatos poderiam claramente levar um indivíduo a pensar que vivemos numa guerra civil.
Quando citam Munique, penso que é pueril tal pensamento. E posso afirmar, com certeza quase absoluta, que na mesma época, em meados da década de 70, nossas forças de segurança seriam as últimas a saber do que estava acontecendo na Vila Olímpica, que culminou com a morte dos atletas.
Vivemos um sistema de segurança que fincou raízes no século XIX. E não é porque cargo A ou cargo B são culpados.
É porque VOCÊ, a SOCIEDADE de maneira geral não faz a menor ideia de como funciona a segurança deste país. Como não se interessam, aceitam qualquer coisa.
É verdade que atentaram contra a vida de Monica Seles no meio de uma quadra.
Mas é verdade também, que atentaram contra a vida de João, Cláudio, Manoel, Pedro, Marcelo, Davi, José Carlos e mais uma série de MILHÕES de brasileiros, sejam em quadras de futsal, praças, parques, praias, asfalto ou favela. Aqui não há lugar propício para se atentar contra a vida de terceiros. Qualquer lugar é lugar. Qualquer hora é hora.
Então, amigos,
Estamos às portas da copa (faço questão do "c" minúsculo).
Divirtam-se.
"Uau!!! Uma copa no Brasil!!!"
Legal ter esse sentimento.
Mas não comparem.
Não reclamem dos alemães, dos suiços, dos belgas, dos holandeses, do resto do mundo que ENXERGA a baixa qualidade de QUASE TUDO por aqui.
Se sentarem para comparar, em um determinado momento, muito breve mesmo, os argumentos vão escassear e a vergonha será inevitável.

Boa copa a todos

quarta-feira, 23 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

CONCURSEIROS: Alguns "Experts" e seus Julgamentos

Ando sem paciência com pensamentos medíocres.
Muito sem paciência mesmo.
Por isso mesmo evito fazer postagens aqui. Faço-as em uma rede social, onde os toscos de pensamento não podem se esconder atrás do anonimato, de maneira geral.
Publiquei uma carta de um AMIGO.
Sim...ele leu o edital.
Ele conhecia tudo sobre o cargo. Tanto que veio até a minha unidade, para conhecer o trabalho de perto. Conversou com escrivães. Viu tudo o que acontece na Delegacia descentralizada. Enfim...ele sabia de tudo.
Mas eu digo a você, ESPERTÃO que acha que pode julgar o Coelho...Você só sabe o que é a Polícia Federal, quando você VIVE a Polícia Federal, o que, em boa parte dos casos de vocês, julgadores do pensamento tosco, não ocorrerá nunca.
O mundo só conhece um lado. E esse lado se deve ao empenho e ao profissionalismo de quem está aqui. De TODOS os cargos. Não demonizo cargo A ou B. A ESTRUTURA está equivocada desde a concepção.
O senhor Anônimo que escreve chamando a FENAPEF de "câncer"...a você,  meu caro, meu humilde recado...VÁ PARA O INFERNO!!!
Baseado em achismos, escreve que os agentes querem ser delegados sem concurso.
Meu caro senhor NINGUÉM, a maioria absoluta de nós, Agentes, Papiloscopistas e Escrivães, não quer ser delegado. Sabe por que? Porque não nos identificamos com as atribuições do cargo. A massa dos agentes entra na Polícia para ir a campo, investigar, colocar a sociedade acima da vida...aliás, riscos assim não parecem ser compatíveis com pessoas que se escondem atrás do anonimato para criticar COISAS QUE NÃO CONHECEM A FUNDO.
Vivemos o caos.
Nosso pior momento em toda a história. E parece ser algo orquestrado. Por enquanto, apenas parece. Certezas nenhum de nós tem. Mas seguimos dia após dia.
A vocês, concurseiros partidários do "SE FOSSE EU..." saibam que se fossem vocês, seria pouquíssimo diferente. Pois o que move o homem é algo muito maior que salários e armas no coldre.
Perdoem-me aqueles aspirantes sensatos, que usam o RESPEITO como palavra de ordem.
Como escrevi acima...minha paciência anda pequena.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

POLÍCIA FEDERAL: A dura REALIDADE e os SONHOS deixados para trás


Carlos Mattos é meu camarada.

De Niterói, assim como eu.
Esteve na minha unidade da Polícia Federal pouco antes de ir para ANP.
Estava vibrando. Empolgado.

Antes de se formar, seu coração estava assim, deixando o sonho para trás.
Percebeu com os próprios olhos a incoerência de um órgão que agoniza nas mãos de alguns, suas excelências, com desejos de serem tratados por "majestades".
Enxergou a insensatez.
A falta de futuro.
O subaproveitamento intelectual efetuado por uma casta de indivíduos que acreditam que o mundo gira em torno deles.
Carlos será um ícone.
Um marco para todos vocês.

Eis aqui, a carta que deixou publicamente, para que ASPIRANTES como vocês, ENTENDAM que o sonho é baseado em fábulas televisivas que NÃO EXISTEM.


CARTA DE MINHA AUTORIA PARA A TURMA BRAVO DO 38º CURSO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE ESCRIVÃES DE POLÍCIA FEDERAL
Amigos da turma bravo,
Venho hoje aqui falar-lhes algo que deve chocar a maioria: estou me desligando deste 38º Curso de Formação Profissional de Escrivão de Polícia Federal. Os mais chegados já imaginavam, pois confidenciei muitos dos motivos que me levaram a tomar esta decisão, outras pessoas suspeitavam por notarem a minha falta de motivação recente.
Sei que muitos estão se perguntando porque estou fazendo isso, já que todos sabem que sou um dos mais vibradores da turma e que nunca medi esforços para nada no caminho percorrido até aqui, mas a verdade é que sempre ouvi e li sobre a crise na PF, sobre a guerra entre deltas (delegados) e EPAs (escrivães, papiloscopistas e agentes), sobre a trava salarial, sobre o descaso do governo Dilma com a PF e a falta de reajuste da remuneração, mas sempre bati no peito e falei que nada disso me desmotivava, nada disso estragaria meu sonho de vestir a roupa preta de letras douradas, afinal de contas tenho vocação policial e não me via fazendo mais nada a não ser isso. Ademais, pensava que o Órgão estava em sua pior fase e que agora era a hora para melhorar e sair da crise. Contudo, estando aqui no curso e presenciando a mais uma tentativa frustrada de negociação do sindicato com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e o Ministério da Justiça senti algo que nunca havia sentido antes, senti o descaso do governo, a ausência de força política dos EPA`s e uma briga sem fim e sem nexo entre delegados e EPA`s, na qual os primeiros sempre saem vencedores.
Com mais essa luta perdida, na qual todos os EPA´s davam como certa a vitória, caiu minha ficha. Vislumbrei um futuro o qual não quero passar, um futuro no qual estaria morando na fronteira, sem nem saber onde ficaria, longe da família e amigos, com um ambiente de trabalho ruim, e ganhando um salário que não daria para atender todos meus anseios e de minha família.
Desculpem-me os que pensam que um EPA ganha bem comparado às outras policias, mas vocês estão enganados. Mudar para fronteira, na grande maioria fronteira do Norte, às suas custas e sem auxílio nenhum do Órgão, tendo que pagar aluguel, alimentação, passagem aérea para vez ou outra visitar a família, e, para aqueles que ainda têm filhos, pagar escola e alimentação destes, para isso são necessários muito mais que os ridículos 6000 reais líquidos (já incluindo o vale coxinha de cerca de 300 reais) que ganha um EPA 3a Classe.
Enquanto isso, carreiras que antes tinham salários que regulavam com o salário dos EPA`s há alguns anos, tal como Auditor da Receita Federal, atualmente ganham mais do que o dobro. Outras carreiras que antes brigavam pela equiparação de vencimentos com o subsídio dos EPA`s, hoje em dia, ultrapassaram e muito o subsídio destes, tal como oficial da ABIN, que hoje ganha 12.000 reais.
Se fosse há alguns anos, eu não pensaria duas vezes, iria pra fronteira sem medo e, caso não desse certo, estudaria para outra coisa. Entretanto, hoje já não sou mais um menino, tenho 32 anos, qualquer decisão minha repercute imediatamente na minha vida e não tenho mais tempo para cometer erros. Além disso, eu tenho um cargo público que me paga bem, o ambiente de trabalho é ótimo, é perto de casa e ainda tenho tempo para estudar lá. Arriscaria tudo isso pela PF, afinal de contas, essa é a minha vocação, mas tenho medo de arriscar nesse momento terrível pelo qual o Órgão passa e me arrepender por anos por ter cometido um erro.
Pode ser que eu me arrependa mais tarde, sobretudo se houver um fim nesta crise que já se arrasta há anos, mas prefiro correr esse risco a tentar algo novo e inusitado como abandonar tudo que tenho para tomar posse na PF, sofrer com o ambiente de trabalho e toda esta crise, e amargurar anos de arrependimento.
A mais recente derrota do sindicato foi a gota d`água que transbordou o meu copo, foi apenas a ponta do iceberg de um problema o qual não quero enfrentar. Mudar para fronteira, com brigas internas na Instituição, longe da família, pagando aluguel e diversas outras despesas, com um salário cada vez mais corroído pela inflação e sem perspectiva de aumento, subutilização da minha mão de obra, descaso do governo Dilma/PT, não reconhecimento dos cargos de escrivão, agente e papiloscopista como sendo de nível superior, tudo isso me fez analisar um futuro que, ao fazer uma ponderação com minha vocação, me fez perceber que vocação tem limite e que é melhor permanecer onde estou.
Como pode um Órgão exigir o nível superior para o ingresso no cargo, mas pela lei reconhecê-lo como nível médio? Sabemos que algumas vezes o sindicato não toma as medidas mais acertadas nas negociações, mas a questão de tentar reconhecer os cargos como nível superior sempre foi buscada pelo sindicato e o Governo sempre permaneceu irredutível quanto a isso, não querendo aceitar o pleito, indicando que nossos cargos são realmente de nível médio. Que incongruência é essa? Pessoas altamente capacitadas, com nível superior, tendo suas atribuições reduzidas a nível médio. Para que isso? Seria uma forma de justificar a trava salarial que impede que um EPA Classe Especial, fim de carreira, receba mais que um Delegado 3ª Classe, novinho?
E quanto ao reajuste anual do subsídio, que existe para corrigir os efeitos da inflação sobre os salários para que estes não percam seu poder de compra? Isso é um mandamento constitucional. Por que a lei não está sendo aplicada? A quem se deve recorrer neste caso? O Governo Federal pensa que é Deus para fazer o que quiser com uma classe, afrontando diversos direitos e garantias individuais e coletivos, direitos sociais dos trabalhadores e, consequentemente, desrespeitando a Constituição Federal. Sinto-me impotente.
Alguns podem estar se perguntando “Mas por que não termina o curso pelo menos, já que já estamos nos aproximando do fim deste?”. Todos sabemos que vivemos uma rotina “punk” aqui, com muitas atividades físicas, aulas teóricas, estudos, escassez de tempo, acordando todos os dias às 6 da manhã, com exceção da 6a feira que acordamos às 5:30 para o hasteamento da bandeira. Temos aulas até as 17:30, quando não temos até as 19:30. 2 meses aqui se parecem com 6 meses. Além de toda essa correria, ainda só temos um dia na semana para o descanso, o domingo, e que na maioria das vezes utilizamos para lavar roupa, fazer compras e estudar. Todo esse esforço e empenho vale a pena quando pretendemos concretizar o sonho de tomar posse ao final do curso, mas, como falei antes, meu sonho se esvaziou pelos motivos já expostos.
Diante de toda essa realidade, passei a me perguntar se seria válido continuar passando por todas essas provações e rotina desgastante, me privando de estar com a família e amigos, para ao final não tomar posse, mesmo porque estou de licença no meu Órgão anterior e posso retornar a qualquer momento e voltar a ganhar minha antiga remuneração. Com isso, passei a me sentir desmotivado, sem a gana que tinha no início do curso, não conseguia mais estudar e só pensava que estava perdendo meu tempo. E foi por isso que decidi pedir desligamento, pois sou uma pessoa que SEMPRE faz bem-feito as coisas, e, da maneira em que me encontro, não farei nada bem-feito.
Quero que saibam (mas creio que sabem muito bem disso) que não estou tomando essa decisão por fraqueza ou impulsividade, até porque todos sabem que sempre dei meu máximo nesse curso, seja no aspecto intelectual, seja no aspecto físico, e sempre tomei a frente de muitas atividades em prol da turma. Na verdade, foi necessária muita coragem para tomar esta decisão, pois estou abrindo mão de um sonho antigo pelo qual lutei MUITO e só quem já se propôs a enfrentar esse desafio sabe o quanto é difícil chegar até aqui.
Fui excedente do concurso de Agente de Polícia Federal em 2012, ficando em 573º, sendo que eram 500 vagas e convocaram até o classificado de número 511. Fiquei muito triste e senti uma dor imensa com essa eliminação, já que o DPF tem a política atual de não chamar excedentes. Contudo, após alguns meses de ostracismo nos estudos, voltei a estudar com intensidade e fui aprovado para este concurso. Por isso, digo-lhes que aqui não está falando um paraquedista ou um concurseiro que atira para todos os lados. Aqui há uma pessoa determinada e focada que SEMPRE teve como alvo a PF. Logo, saibam que não está sendo nada fácil desistir de tudo isso. Está sendo uma decisão muito difícil, e tentei muito retomar a visão romântica que eu tinha da PF para poder me encher de vontade e vibração novamente, mas não estou conseguindo mais.
E, por mais que seja difícil tomar essa decisão, sei também que Deus me capacitou muito neste caminho e pude perceber meu potencial, fui aprovado, ao final de todas as etapas, em 48º num dos concursos mais difíceis do país, com 84.000 inscritos, e por isso devo levantar a cabeça e seguir em frente, pois certamente Deus vai me honrar novamente com mais uma aprovação se eu fizer por onde.
Não me arrependo de nada que fiz até aqui, não considero uma viagem perdida, realizei um sonho que muitos tentam, mas poucos alcançam, que é ingressar na Academia Nacional de Polícia. Com a realização deste sonho, fiz muitos amigos aqui, aprendi a atirar, fiz mais de 700 disparos com pistola glock 9mm, revólver calibre 357 magnum, submetralhadora mp5 e calibre 12.
Todavia, não poderei realizar meu sonho de efetivamente me tornar policial federal, pois este sonho se esvaziou com todas essas brigas e crises institucionais, brigas inúteis que só destroem Órgão e não representam o que é a Polícia Federal. A Polícia Federal é maior do que todas essas mazelas, e isso me entristece profundamente, pois sempre foi meu sonho ser policial federal, lutei muito por isso e agora vejo a instituição numa situação que não condiz com sua magnitude. Mas nossos sonhos têm que nos fazer felizes.
Como mencionado anteriormente, fiz muitos amigos nessa jornada e, sobretudo, aqui na Academia, especificamente na turma Bravo.
Busquei no dicionário o significado da palavra Bravo e encontrei: aquele que afronta o perigo; corajoso; heróico; intrépido; resoluto; digno de aplausos. Esses termos descrevem com precisão essa turma, pessoas do bem, amigas, que se superam a cada obstáculo e ombro a ombro ajudam os demais a superá-los também. Como não lembrar das aulas de natação operacional? Todos tendo que fazer flutuação e simulando o auxílio a uma vítima. Todos estavam esgotados, sem conseguir nós mesmos flutuar, e mesmo assim permaneciam até o fim na tentativa de auxiliar as “vítimas”. Tenho certeza que vocês serão excelentes policiais e torço de verdade para que no futuro as coisas melhorem no Departamento, para que vocês sejam muito felizes na casa.
Havia duas coisas que me faziam repensar em ficar ou não aqui: meu sonho de ser policial federal e vocês. Amo cada um como se fossem meus amigos de infância, parece que os conheço há anos.
Acho que, por onde passamos, devemos deixar sempre um legado, uma marca, pois assim como disse Edmond Locard, através da formulação do princípio básico da ciência forense, no qual “todo contato deixa uma marca”, sei que deixei uma marca, ainda que pequena, nesse curso de formação e nos corações de cada um de vocês.
Lembrem-se sempre de mim como: o Coelho testa das aulas de corrida do grupo 1; o Coelho orador oficial da turma nos agradecimentos aos professores que encerravam suas matérias; mas, sobretudo, o Coelho vibrador e que tem nas suas veias o sangue policial.
É uma pena que o Departamento esteja dessa forma: interesses e brigas classistas sobrepõem-se aos reais interesses da Polícia Federal; Assédio moral com os subordinados na tentativa de demonstrar submissão; Governo Dilma, por retaliação às tantas operações que investigaram seus partidários, trata com indiferença e desprezo a Instituição pública mais respeitada pela sociedade levando-a gradativamente ao sucateamento e desmotivação dos seus policiais.
O que mais tenho visto e ouvido são amigos e conhecidos que já estão na “firma” e me dizem para repensar se quero mesmo entrar e que estão estudando novamente para outros concursos para poderem sair do Departamento. Isso é uma pena, pois estão perdendo policiais vocacionados, que amam a Polícia Federal e doariam suas vidas à causa policial, e, neste momento, a Instituição acaba de perder mais um que se encaixa nessa descrição, eu.
Carlos Roberto Coelho de Mattos Júnior
Nome de guerra: Coelho
crcmjr@hotmail.com
Ex-aluno da Academia Nacional de Polícia (XXXVIII CFP EPF)

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