quinta-feira, 23 de julho de 2015

A necessidade de ouvir a população

Contextos Urbanos: A brutalidade e a fábrica de monstros

O sentimento de horror veio como uma flecha em chamas. Atingiu o coração de muitos de nós diante da crueza e da brutalidade do assassinato do médico na Lagoa Rodrigo de Freitas. A sensação é de que a qualquer momento um de nós pode se tornar vítima dessa torrente de violência que nos assola, oprimindo e nos fazendo encarcerados em nossas próprias casas.

Que cidadão é capaz de dizer que anda pelas ruas sem receios hoje em dia? Difícil controlar os medos, seguir adiante, acreditar em dias melhores. Mas aproveito o momento para pedir um momento de reflexão a todos que param alguns segundos por aqui, para ler estas linhas. Por que tanta brutalidade nas veias de um adolescente? Recém-saído da infância, que seguramente não teve o rapaz, não pensou em roubar a bicicleta e esfaquear se houvesse uma reação. Sua meta foi, desde o momento e nesta ordem, matar e levar a bicicleta.

Como ele, existem diversos espalhados, perambulando meio que sem destino, pelas ruas do Rio de Janeiro e do resto do Brasil. Monstros que foram alimentados por anos de crueldade, falta de assistência e violência social. Indivíduos sem apego algum pela vida dos outros, porque acreditam piamente que esses outros não tem nenhum interesse pelas suas vidas. E, via de regra, isso é verdade.

Foi realmente brutal a morte do médico. Mas saltou aos olhos do mundo por uma série de fatores. A brutalidade foi um deles, com certeza. Outro, seguramente, foi a vítima e o local do crime, cartão-postal de uma das cidades mais faladas do mundo. Devemos, mesmo, ficar horrorizados.

Mas poucos param para pensar nos superlativos números de ataques com facas que ocorrem diariamente nos rincões mais distantes deste país. Engana-se quem acredita que a violência empregada no ataque é um fato isolado. Todos os dias, em comunidades esquecidas por nós e pelo tempo, milhares de pessoas são perfuradas com facas, espetos, navalhas, tem familiares violentados, são humilhados de diversas formas por opressores oficiais ou não.

Pouco refletimos sobre a desgraça real na qual uma parcela significativa da população brasileira está inserida. Crianças como o adolescente assassino do médico, crescem num contexto de violência e abandono que se renova a cada dia, quando gestores escolhidos à dedo, perpetuam a situação de invisibilidade social dessas pessoas.

Quem desconhece a realidade desses indivíduos, é capaz de reclamar dias e dias se os garis entram em greve. Não suportam a sujeira. O lixo nas ruas é incompatível com sua noção de civilidade. É mesmo? O que achariam de viver num local onde o lixo faz parte da paisagem? Onde caminhões de lixo são partes de histórias contadas por alguns moradores que trabalham em cima deles?

E o esgoto? As “línguas” negras que avançam pelo mar, que tanto incomodam. Redes que estouram e deixam vazar o resto não tratado das descargas, levando mau cheiro às praças e vias dos centros urbanos. Já imaginaram um “recanto” no qual o esgoto corre a céu aberto? Onde crianças e donas de casa dividem seu espaço com ratos e outros vetores de doenças típicas da falta de saneamento?

Para os habitantes do mundo visível, quando chove muito, é o caos pois seus carros ficam paralisados no trânsito, ou muitos ficam ilhados ou confinados por conta das águas descontroladas pelos bueiros entupidos e falta de escoamento. Para os invisíveis, os “Ninguém”, a chuva pode significar o fim da sua vida ou de toda a família, ou de toda a vizinhança. Suas casas desabam, seus parentes morrem e ponto final. Dificilmente serão manchetes nos maiores periódicos do mundo.

Diante do caos total, da falta de amparo, da ausência de poderes mínimos de um Estado criado e pensado para ignorá-los, jovens são alimentados por ódio e sentimento de revolta. Sem querer vitimizá-los, mas enxergando a realidade com a dureza que ela carrega consigo. Nosso descaso, talvez não de agora, mas de décadas atrás, acelerou a máquina de fabricação de monstros. Jovens assassinos, quase psicopatas, que desconhecem o significado de palavras como respeito, amor, consideração. Crianças que odeiam o mundo e que colocam em nós a culpa por tudo de ruim que a vida lhes reservou. E muitos de nós pensam de forma simplista dentro de sua lógica de segregação: quanto mais longe de nós esses indivíduos estiverem, melhor. E se forem delinqüentes, que sejam encarcerados e, se possível, esquecidos.

O que fazer, então? São coitados? Sim e não. É preciso retirá-los do convívio social? Sim. A punição se faz mais que necessária. Mas é preciso ter consciência que a produção em série de jovens que odeiam o mundo e as pessoas não para. O processo de criação do monstro começa segundos após o seu nascimento. São segundos preciosos, nos quais o poder público precisa mostrar sua presença. E nós, da sociedade civil, temos a obrigação de arregaçar as mangas para criar modificações significativas em nosso meio. Para que tenhamos uma vaga esperança, de que um dia poderemos voltar a andar sem medo pelas ruas das nossas cidades.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Contextos Urbanos: Tem sido difícil acordar


Tem sido cada dia mais difícil acordar. Não. Acho que o problema não é acordar. A luta maior é para sair da cama e encarar o mundo. Mesmo após 19 anos de uma escolha que já se mostrou equivocada, ainda insisto em seguir adiante. Acho que é para não dar o braço a torcer, simplesmente. De qualquer forma é impossível esconder do mundo a vergonha que sinto.

Vergonha de me ver pertencente ao esdrúxulo sistema de segurança pública do país. Vergonha por fazer parte de uma farsa contada aos brasileiros há séculos. Não, meus caros. Não acreditem em segurança pública. Ela não é pública. Isso não existe no Brasil. Ou então, pode ser que o mundo inteiro esteja errado e nós, os bravos guerreiros tupiniquins, estejamos cobertos de razão em manter nossa estrutura de segurança como ela é. Talvez seja isso.

Provavelmente estejamos indo pelo caminho correto, quando nosso índice de resolução de homicídios é de menos (bem menos) de dez por cento. Errados são os países que têm índices superiores a setenta por cento. Eles são o mau exemplo. Nós, singulares em nossa conduta, deveríamos ser a referência seguida por eles.

Nossa sociedade repleta de segregações, veladas ou não, encontra espelho na organização de nossas polícias ostensivas, que jamais deveriam ser regidas por códigos militares, mas que são o retrato escancarado do abismo social da pátria desnorteada. Pobres, com poucas chances de estudar, serão sempre os soldados comandados pelos filhos da classe média, com condições de pagar os bons cursos preparatórios para posteriormente ingressarem nas escolas de oficiais. Algo sem similares no mundo, nossos policiais ostensivos, mesmo com jurássicos anos de atividade de combate ao crime, serão comandados por imberbes oficiais com a vasta experiência dos três ou quatro anos de escola de formação.

Preciso dizer que a maioria absolutíssima desses jovens egressos são de muito boa índole, com sonhos de fazer diferença na vida das pessoas. Até que a realidade de uma vida de caserna policial (?) os atinge como um trem desgovernado. E por mais que sejam destemidos e bravos com anseios de mudança terão que enfrentar a verborragia de gestores que emitem ordens incoerentes, repletas de influências fascistas, que não estão acostumados a ouvir a palavra NÃO como resposta aos seus intentos megalômanos. Gestores que enchem até mesmo o coração de orgulho quando são comparados a personagens cinematográficos caracterizados por seu excesso de condutas violentas.

Olho para nossos métodos e, muitas vezes, a tendência é de rir. Não. Gargalhar mesmo. Vejo em algumas unidades de polícia do país inquéritos policiais, ainda em andamento, instaurados há mais de uma década. Como em um livro de Kafka, a engrenagem range e gira pouco, quase nada. É como se tudo isso, há centenas de anos quando foi criado por aqui, tivesse sido planejado para dar errado. Sabemos que existem abnegados policiais de todas as categorias que lutam contra isso, tentando atingir uma celeridade, que parece um ser mitológico. Mas é uma luta inglória. Logo são identificados por pares interessados na continuidade da desgraça e colocados no seu devido lugar. Lugar onde possam esquecer e ser esquecidos de seus devaneios de produtividade.

De qualquer forma, o ingênuo “Zé Ninguém”, figura maior do segmento conhecido como “Povo”, jamais saberá disso. A ele sempre será negada a verdade. Parecerá aos seus olhos que pomposos seres em seus gabinetes refrigerados sejam realmente os salvadores da pátria em investigações mirabolantes, que tiram de circulação inimigos públicos cada vez mais dotados de superpoderes. Na verdade, o único superpoder que esses bandidos têm é retangular, feito de papel e atende pelo nome de Dinheiro.

Então a sociedade pede em uníssono: “Tem que prender!!!” E eu, mais uma vez, e me desculpem por isso, acabo rindo disso tudo. Nosso insuperável sistema carcerário, sem parâmetros em todo o mundo verdadeiramente civilizado, será o responsável pela reeducação de indivíduos que compram sem pestanejar, até mesmo mães novas para si mesmos? Alguém realmente acredita que a vida de um bandido milionário (se for do ramo de petróleo, será bilionário) muda em muitos presídios deste país? Será? Acredito piamente que uma parcela considerável dos agentes e inspetores penitenciários cumprem seu papel com honradez e coragem. Mas já passamos da época em que acreditávamos em um velho barrigudo e barbudo a distribuir presentes no Natal. Não. Não acreditamos mais nesse velhinho vestido de vermelho.

Enquanto a polícia, o sistema penitenciário e os instrumentos de investigação não forem tratados com seriedade estaremos sempre imersos num porão transbordando de piadas de mau gosto. Por quanto tempo seremos obrigados a ver o sistema privilegiar concursos para gestores inexperientes, deixando em segundo plano o que mais importa para objetivo da polícia, que é colher provas? Sinceramente, eu gostaria de parar de achar graça disso. Queria abrir os olhos, como fazia há muitos anos, levantar e sentir que estar ao lado da lei tem algum sentido nesta vida.



A Ineficiência do Inquérito Policial



O Doutor Ozeas Correa Lopes e o Professor Sandro Araujo debatem a ineficiência do método de investigação brasileiro. Suas estatísticas, suas origens, sua utilização corporativista.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Contextos Urbanos: "Você se importa?"

Eu ando pela cidade. Independente da violência, do caos e da insensatez, eu ando pela cidade. Para percebê-la. Para saber onde estou. Mais. Para saber quem sou. E não é apenas Niterói. Não é o Rio de Janeiro. Não. As cidades são os retratos dos homens e mulheres nos quais nos tornamos.

 Um dos momentos mais difíceis dos meus dias de trabalho no plantão da Polícia Federal, em Niterói, é o momento em que retorno do horário do jantar, para reassumir meu posto. Sempre por volta de 23h, vejo uma cidade que a maioria dos cidadãos não vê. Mas sabem que existe.

 Passo pelos moradores de rua. Preparando-se para mais uma noite ao relento. Muitos deles ali por uma questão de escolha. Sim. Acreditem. Muitos escolhem a rua. Deixam tudo para trás. História, trabalho, família. Querem ter seus nomes apagados. E mergulham na dureza de viver nas ruas. Nós do Projeto Geração Careta tentamos, certa vez, de maneira até ingênua, trazer alguns desses indivíduos ao mundo dos vivos. Descobrimos incrédulos, ex-empresários, ex-funcionários públicos, cujas famílias sequer imaginam onde estão. E ouvimos de forma contundente, que se a família soubesse deles, que mudariam de cidade. Simplesmente, não querem fazer parte do mundo.

 Um pouco mais adiante, observo grupos de jovens, menores de idade em sua maioria, amontoados sob as marquises de nossa avenida principal, usando drogas. Quase todos entorpecidos pelo crack. Andam de um lado para outro, como zumbis. Empurram-se. Riem de sua própria desgraça. Vêem um senhor, provavelmente um dos últimos boêmios do Centro da cidade, e correm para cima dele, desistindo ao perceberem a presença de um carro de polícia. Diminuo a velocidade do carro, quase paro. Olho insistentemente para eles, tão jovens, quase todos crianças. Penso que muitos de nós dizem se importar. Mas como é isso? Importar-se diante da televisão ou lendo as páginas de um jornal? Melhor... A indignação vem através de discursos inflamados nas redes sociais, que exigem providências de Deus e do mundo em relação ao perigo que esses “crackudos” representam. Concordo. São um perigo. Mas a maior parte de nós os merece.

 Na reta final, ultima rua na qual transito para chegar ao meu destino, passo por pessoas envolvidas em suas roupas brilhantes, coloridas, chamativas, com penteados não menos exuberantes e pedaços generosos dos seus corpos à mostra. Travestis e prostitutas dividem seu espaço nas ruas do Centro de Niterói e do resto do mundo. Você é capaz de se lembrar deles? Provavelmente, apenas no momento em que os vê. Talvez o mesmo acontecesse comigo, se não tivesse a obrigação de passar por esse caminho tantas vezes no ano. Somente sendo um tolo para acreditar na máxima de que esses indivíduos, são homens e mulheres de “vida fácil”. Sinceramente, não vejo que facilidade há em alugar seus corpos para sobreviver, quase sempre à mercê de algozes, que são os verdadeiros “donos” dos espaços habitados pela prostituição de homens e mulheres. A violência e o abandono são, quase sempre, a tônica.

 Com tudo isso, o trabalho de plantão acaba se transformando em momentos sem fim de reflexão sobre como fazemos questão de ignorar pessoas que vivem sem a menor dignidade. Gente que desceu aos últimos degraus de tudo o que é sensato. Que são invisíveis para a maior parte dos “cidadãos de bem”, que jamais andaram pelo submundo. Nós, policiais, infeliz ou felizmente, tivemos a oportunidade de conhecer os guetos. A realidade se desvenda nua, com toda a sua crueza para nós. E muitos de nós, cães de guarda de quem descansa placidamente, enquanto o mundo se acaba, também se esforça para que esses personagens sejam invisíveis. Entretanto, alguns, incomodam-se de forma cortante. Sequer respiram bem, diante da realidade do mundo.

E você, que lê estas linhas através do seu PC, tablet ou smartphone? Quem é você? De que lado você está? Que mundo você deseja para o mundo?

Sobre os ataques com FACAS

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